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Comunidade caiçara transforma ‘mês do desgosto’ em festival de jazz sustentável

Comunidade caiçara transforma ‘mês do desgosto’ em festival de jazz sustentável

Por Daniele Agapito

Desembarquei na Ilha do Mel às 11h30 da manhã num sábado ensolarado para o inverno. Calor nada escaldante, ao ponto. Um moletom desses que você veste só por precaução segura qualquer massa de ar mais gelada. Quem nos recebe perto do trapiche é Felipe Andrews — não se engane pelo sobrenome, ele é nativo da ilha e liderança da comunidade caiçara. Felipe me entrega um manual de 35 páginas com protocolos de consulta da comunidade. O objetivo? Difundir a mensagem para qualquer especulador imobiliário ou empresa que cresça o olho e ocupe o território: aqui não. Para que não sufoquem os nativos e nem tentem coagir ou influenciar qualquer tomada de decisão que descaracterize a ilha e seu modo de viver.

Foto: Daniele Agapito

O Ilha do Mel Jazz é um festival pensado, gestado e realizado pelo povo tradicional de Nova Brasília. E é pra entender esse movimento, que transformou agosto em alta temporada, que vim parar aqui.

As pousadas estão lotadas. Agosto não é mais o mês do desgosto — palavras de Felipe. O turismo de base comunitária voltou a render. Barcos pra lá e pra cá, filé de tainha na mesa dos restaurantes, hidromel e arroz lambe-lambe para quem quiser. É preciso andar. E muito. Dentro da ilha não entra carro, graças a Deus. Por todos os lados você encontra restinga, manguezais, cheiro de mata atlântica e cachorros contentes. O festival é pet friendly. É tão pet friendly que levei uma rasante de um papagaio-de-cara-roxa no caminho até o circuito Jazz Agosto. Ele não tem medo de gente.

Foto: Daniele Agapito

Perambulei muito pela areia fofa e encontrei música ao vivo e gente cantando em vários pontos da ilha. Mas foi ali no trapiche que a ideia entrou em ebulição. O jazz, ritmo das diásporas africanas na América do Norte, parece distante, mas aqui faz parte da playlist caiçara. O curioso é que não existe nenhum purismo: artistas misturam jazz com reggae, fandango, samba, MPB, chorinho e bossa nova instrumental.

Ao fim da tarde, depois de assar as batatas da perna subindo 150 degraus até o Farol das Conchas (construído por ordem do Imperador Dom Pedro II em 1870), volto para o trapiche. A qualidade dos artistas é inquestionável. Fernando Lobo, músico caiçara, de cara lança uma Rabeca Overdrive e pisa forte os tamancos no palco. Claramente influenciado pela mistura de ritmos do Manguebeat pernambucano.

Às 17h, com a maré baixinha, caminhei até a beira da praia para assistir à descida do sol que parecia uma bola de fogo mergulhada na linha do horizonte.

Ouço ao longe o som do saxofone de Derico, músico que mantém seu icônico mullet na região occipital do crânio. E que ficou nacionalmente conhecido por integrar o sexteto do Programa do Jô madrugada adentro na TV aberta. Chego mais perto. Ele toca olhando no olho. Tem muita presença de palco. E do nada manda umas falas muito sagazes:

-“Vou tocar a música de um artista que passou a vida inteira dedicado a morrer. Tanto, que conseguiu.”

E aí solta um hit atrás do outro do Tim Maia. A noite terminou com todo mundo cantando junto: Primavera, Azul da Cor do Mar, Você…

O festival acontece às sextas, sábados e domingos durante todo o mês de agosto.

Nota: 10 de 10.

Fonte: midianinja.org

Publicado em: 2025-08-04 17:10:00 | Autor: <span>SOM.VC</span> |

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