Por Ingrid Santana
Não é incomum, no cinema de gênero, o uso de alegorias mitológicas para abordar assuntos reais que reverberam na sociedade. Porém, há tempos esses filmes vêm sendo esnobados nas temporadas de premiações, com algumas exceções que entram para a história. Pecadores (2025), dirigido por Ryan Coogler, foi o grande destaque deste ano com 16 indicações.
A trama se passa na era Jim Crow, no sul dos Estados Unidos, especificamente no Mississippi, numa época marcada pela segregação racial. Somos introduzidos aos gêmeos idênticos, Fumaça e Fuligem (Michael B. Jordan), que voltam a sua cidade natal para abrir uma Juke Joint (estabelecimentos informais comunitários de música, dança, bebidas, jogos e etc.), comum na área rural como um espaço de acolhimento das populações afro-americanas.
Aqui, a identidade do blues é uma válvula de escape para o personagem Sammie Moore (Miles Canton), mas para seu pai, Jedidiah Moore (Saul Williams), é uma forma de atrair o “mal”, o que encaminha a narrativa para o campo do sobrenatural.
Ryan Coogler comenta em uma entrevista a Zachary Levy:
“A migração inicial dos afro-americanos para os Estados Unidos foi forçada. O sistema de escravidão nos manteve ativamente desumanizados e também lucrou com isso. O sistema mudou e se transformou em um sistema feudal, efetivamente a escravidão com outro nome. A opressão podia ser prolongada por meio de práticas contábeis enganosas… isso faz com que os oprimidos anseiem por outros lugares.”
O apagamento cultural é abordado por meio da mitologia vampiresca para ressignificar o mito. Aqui, o vampiro irlandês posteriormente introduzido, Remmick (Jack O’Connell), se apropria da cultura negra para se aproximar de sua própria cultura, que há séculos também havia sido invisibilizada.
A sequência musical na montagem surrealista em que Sammie Moore conecta o passado e o futuro através da música é a catarse máxima desse encontro entre a ancestralidade do blues, que ultrapassa múltiplas gerações, e o presente, com a arte do hip-hop.
Coogler sobre a cena em uma entrevista ao Los Angeles Times:
“Assim que Sammie começa a cantar e os dançarinos e músicos entram, eu escrevi a cena para ter representações de como seriam os personagens principais tanto no passado quanto no futuro. Com Sammie, o primeiro ancestral que vemos está tocando aquele instrumento de corda, e o representante do futuro dele é o guitarrista elétrico.“
É um respiro em Hollywood, em meio a diversas sequências e remakes, um filme autoral quebrar barreiras neste gênero no mainstream.
Publicado em: 2026-03-07 19:00:00 | Autor: <span>Cine NINJA</span> |


