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ENTREVISTA: Brasileiros visitam a Palestina em campanha de solidariedade da torcida Green Brigade

ENTREVISTA: Brasileiros visitam a Palestina em campanha de solidariedade da torcida Green Brigade

A torcida Green Brigade, do Celtic FC, lançou em março desse ano a campanha “Mostre o cartão vermelho a Israel”. A mobilização cativou torcidas de times como Osasuna (Espanha), Livorno (Itália), Palestino (Chile), Terengganu (Malásia), Atromitos FC (Grécia), Deportivo Alavés (Espanha), Pisa SC (Itália), Lecce (Itália) e Independente (Brasil). 

Dois meses depois da campanha, em maio, os torcedores decidiram se mobilizar para além das fronteiras dos próprios países e ir até o território palestino em uma viagem solidária. Foi assim que várias torcidas orgnaizadas do mundo visitaram as cidades de Tulkarem, Jenin e Hebron, na Cisjordânia.

Representando a América Latina, vários ativistas brasileiros compuseram a comitiva, entre eles o presidente da torcida Independente, do São Paulo, Matheus Marcelo. O jornal A Nova Democracia conversou com ele sobre a viagem. 

Jornal A Nova Democracia (AND): Como e por que você fez essa viagem? 

Matheus Marcelo (MM): Fomos convidados pelos Ultras da torcida Green Brigade, do time Celtic, da Escócia, devido às ações que a torcida Independente têm feito dentro e fora do estádio no Brasil em apoio a Palestina, pela grande repercussão. Nós fomos representando a América Latina e os Bukaneros do Rayo Vallecano representataram a Espanha. 

Nós conhecemos os campos de refugiados de diversas regiões da Palestina, em especial os localizados no norte da Cisjordânia, que sofrem uma situação de repressão similar a de Gaza. É muita destruição e pessoas sem ter para onde ir.

AND: Como foi o trâmite para conseguir entrar na Cisjordânia?

MM: Eu prefiro não explicar pra não ‘moiar’ o esquema, mas é bem complicado. Temos que passar diversas vezes pelos checkpoints do exército israelense.

Em um desses, um dos nossos guias palestinos foi detido, algemado e agredido. Isso porque, no passado, ele passou 8 anos na cadeia por lutar contra os sionistas, então é tensão o tempo todo lá dentro. Nós que somos brasileiros tivemos que mostrar o passaporte diversas vezes pra eles checarem se eram reais, porque temos “cara de palestino”.

AND: Qual foi o objetivo dessa viagem da Green Brigade?

MM: Conhecer a realidade do povo palestino, como funciona a ocupação sionista e o que eles passam diariamente, também conhecer o projeto deles com o Lajee Celtic no campo de refugiados Aida, e os outros campos de refugiados ao redor da Palestina para ajudarmos.

AND: Quais campos vocês visitaram?

MM: Visitamos o campo de refugiados de Tulkarem, totalmente devastado e desabitado após os ataques do exército de Israel. Conhecemos as vítimas do ataque, que contaram como tudo ocorreu. Mesmo no dia em que fomos, havia soldados dentro do campo, e snipers. 

Visitamos outro campo também totalmente devastado, em Jenin, onde o exército de Israel agiu com o mesmo modus operandi: chegaram, deram apenas 5 minutos para as famílias irem embora, destruíram todas as casas, mataram e prenderam pessoas.

Pelo que nos explicaram, essa ofensiva começou em janeiro porque eles pretendem acabar com os campos de refugiados. Esses campos são similares às favelas do Brasil, e é onde ficam os focos da resistência palestina.

Em toda a Palestina tem um monte de colônia de israelenses em volta das cidades. Todas as cidades são cercadas com muros, as cidades são todas cheias de checkpoint militar israelense e eles param quem quiser o tempo inteiro para interrogar, pra mandar descer do carro, pra maltratar.

Mas em Hebron, tem uma situação específica que a colônia é bem no centro da cidade, então na rua principal do principal mercado,  os colonos vivem em prédios em cima dos mercados da cidade. É como se fosse um calçadão em que você anda e tem as lojas dos palestinos embaixo, e em cima tem um monte de prédios de israelenses. 

E os sionistas não se misturam, eles acessam as residências por outras ruas. E os únicos acessos que os palestinos têm aos mercados foram concretados, apenas alguns entradas menores estão disponíveis. Mas mano, os caras não tem cliente, ninguém mais vai lá com medo dos colonos, tá ligado? 

Os colonos fecharam uma porrada de loja, mas sobraram algumas que estão tentando sobreviver. As ruas em volta são todas fechadas, de livre acesso apenas aos colonos, e os palestinos não podem passar por essas ruas mesmo estando no país deles.

O que achei mais absurdo, é que nesse calçadão tem uma grade em cima da gente o tempo todo que os próprios palestinos colocaram, porque os colonos ficam jogando lixo e pedra de cima dos apartamentos deles. Então eles ainda tiveram que colocar uma proteção na cabeça deles pra poder andar na rua sem ser apedrejado.

AND: Qual a impressão que você teve ao conhecer os campos de refugiados?

MM: Sobre a situação dos campos de refugiados eu achei que são similares às favelas.

Começaram como tendas, há muitos anos atrás, no século passado depois da Nakba e toda aquela situação, mas que com o tempo foi virando praticamente uma cidade como se fosse uma favela, a diferença é que você não vê droga e não vê viciado na rua. 

Eles têm um senso coletivo muito forte. Eles são muito parecidos com nós brasileiros, eles gostam de fazer amizade. Receberam a gente muito bem, foi o melhor povo que recebeu a gente aqui no Oriente Médio de todos os países que a gente passou. 

E é igualzinho uma favela, é um ajudando o outro, eles são, muito, muito solidários, até bem mais que nas quebradas aqui, porque eu moro numa quebrada também. 

Os palestinos são bem mais unidos que a gente aqui (no Brasil), e é uma quebrada onde todo mundo se ajuda e a gente se sente muito mais seguro lá dentro do que fora, porque fora é militar israelense pra cima e pra baixo e aquela situação toda.

Já nos campos de refugiados não. A galera respeita. Os caras são bem unidos mesmo, e são nesses campos de refugiados onde estão os grupos de resistência.

AND: Como é o cotidiano da vida nos locais que você visitou?

MM: O cotidiano é de opressão. Opressão diária. Por exemplo, a gente visitou uma família, que o cara trabalha num bairro do lado. Ele perde quase duas horas pra ir duas horas pra voltar só por conta da quantidade de checkpoints israelenses que ele tem que passar, pra checar a identidade dele e ver se ele pode transitar por aquele local e ir pro trabalho dele.

Nas colônias que que cercam as cidades, eles não podem passar de jeito nenhum. E alguns deles não podem nem passar por outros bairros ou cidades dentro do próprio território palestino. 

É muito, muito zoado mesmo, então é opressão diária, é maus tratos diário, o soldado pode pegar e parar você, pegar seu celular e olhar tudo, fazer o que quiser. 

Com o nosso guia que é palestino, teve uma situação que a gente estava indo pra uma dessas cidades em um campo de refugiados conversar com os refugiados, e em um desses checkpoints a polícia pegou ele por ser palestino, algemou ele e vendaram os olhos dele, levaram para uma sala e tomaram nossos celulares,  fizeram um monte de pergunta pra gente pra ver se batia com as repostas do cara. Quando liberaram ele, vimos que ele tinha sido agredido, ele estava com os pulsos cortados porque eles apertaram a algema dele pra causar dor mesmo.

Acredito que ele acabou liberado porque estava com nós e com os caras da Escócia, mas eu acho que se não fosse com a gente o negócio seria totalmente diferente com ele, eu acho que os israelenses não tinham soltado ele não porque os cara foi na intenção de prender ele mesmo.

AND: E como o esporte influencia a vida dos jovens palestinos?

MM: Bom, o esporte influência em tudo né? No centro do Lajee em Aida, as crianças têm estudo, de outras línguas como o Inglês e Francês, elas fazem academia, praticam Boxe, dança, eles tem uma série de projetos ali dentro pra fortalecer a comunidade. Todos mantidos por eles e quem trabalha no centro são os próprios palestinos, então é um trabalho incrível.

O é mantido com doação da própria torcida da Green Brigade. E só pra deixar claro, o clube do Celtics não apoia, não ajuda em nada, mas acaba levando todo o crédito. Quem faz tudo são os Ultras da Green Brigade. É a torcida, quem mantém, quem dá a grana, tudo e tal. 

Realmente traz outra perspectiva, porque os outros campos de refugiados que a gente foi não tinha um trabalho como esse e a gente viu como é difícil do povo se organizar sem ter um local, sem ter uma estrutura, sem ter recurso, é muito difícil.

AND: Quais mensagens os Palestinos passaram pros brasileiros?

MM: A mensagem que eles passaram pra gente é que a gente esteja com eles, apoie, que a gente mostre a realidade.

Eles sabem que o mundo todo está apoiando a Palestina, mas eles sabem também que no Brasil isso não é tão forte, eles inclusive sabem que isso tem ligação com os neopentecostais, comentaram sobre com a gente. 

Eles entendem bastante do Brasil, conversando com muita gente aqui, pude ver que eles tem bastante informação sobre o Brasil. Eles várias vezes perguntaram o que nós achamos do Lula… Essas coisas assim, a gente falou que não gosta e tal, explicamos para eles, e eles entenderam porque é uma situação similar ao que ocorreu na organização deles.

O que eles pediram pra gente mostrar pro mundo mano, é solidariedade a Palestina, mostrar pro povo brasileiro, tentar mudar a mente do povo brasileiro. É a única coisa que eles querem da gente. Não é dinheiro, eles não querem dinheiro, só querem que a gente apoie eles, que a gente faça mais brasileiros apoiarem eles.

AND: Gostaria de acrescentar alguma experiência que passou lá e poderia compartilhar?

MM: A situação dos dois campos que eu citei sem ser o Aida são importantes.  

Que são o de Jenin e o de Tulkarem, esses dois estão completamente destruídos. Os caras antes da gente visitar nos falaram “Vocês vão ver uma situação igual a de gaza”.

E dito e feito, chegamos lá e tudo estava destruído, devastado. Eles relataram que eles [palestinos] estão morando em escolas, na rua, em casa dos outros, dentro de igrejas cristãs, dentro de mesquitas, porque eles não têm pra onde ir, ninguém ajuda eles, nem mesmo a autoridade palestina. Inclusive a autoridade palestina colabora com os sionistas.

A gente visitou uma escola infantil que os soldados [israelenses] tinham apagado os mapas da palestina que estavam pintados dentro da escola, picharam as paredes, roubaram televisão. E quando a gente subiu no telhado dessa escola… é que eu não consegui fazer um vídeo, eles [guias] pediram pra fazer um vídeo disfarçadamente e rápido porque ficavam sempre uns snipers apontando pra lá, e a gente não podia nem ficar olhando muito pela janela pra você ter ideia do nível da coisa… Eu subi muito rápido e acabei não gravando um vídeo porque eu fiquei muito emocionado, fiquei com vontade de chorar quando eu olhei por cima o tamanho da destruição na região.

Mas, isso dentro da Cisjordana, dentro da Palestina né, fora da faixa de Gaza tem muitos locais que estão nessa mesma situação que Gaza. Porque os cara querem apagar o povo dali e ir construindo cada vez mais dentro do território deles. Essa é a situação que a gente viu.

Fonte: anovademocracia.com.br

Publicado em: 2025-07-04 17:27:00 | Autor: Editor Executivo |

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