Após 130 anos do início do conflito de canudos, imagem rara revela que a cabeça de Antônio Conselheiro ficava exposto na mesa de Nina Rodrigues e virou cinzas após um incêndio em pleno carnaval
Publicado em 7 de março de 2026 às 05:00
Uma foto antiga, que para leigos poderia ser facilmente confundida com algum filme de terror. Uma mesa com prateleiras repletas de crânios, mais de 50 no total. Esta foto, perdida entre outras, mostra o local de trabalho do médico Nina Rodrigues, na Faculdade de Medicina da Bahia, no Pelourinho. Sim, o nome dele está no Instituto Médico Legal de Salvador, pois ele é considerado o pai da medicina legal brasileira. O que passou despercebido por anos nesta imagem, presente no acervo pessoal do médico, é que, na parte esquerda superior, uma das únicas cabeças quase mumificadas pertence a um dos personagens mais icônicos da história brasileira: Antônio Conselheiro, líder de Canudos. Talvez seja o único registro do que restou do homem que foi o inimigo número 1 da república, mas neste caso a pergunta é outra. Afinal, o que a cabeça de uma pessoa tão notória estava fazendo ali, perdida entre desconhecidos? Ou, melhor dizendo, como a cabeça foi parar ali?
O próprio livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, fala que a cabeça de Conselheiro foi cortada, mesmo depois dele já enterrado. Contudo, até então, não se conhecia registros fotográficos deste crânio e era motivo de debate se isto realmente aconteceu. “Muitos não sabem que sua cabeça foi cortada em Canudos e levada para Salvador. Isso torna o tema ainda mais intrigante, pois muitas pessoas duvidaram, mesmo diante de tantos argumentos. A cabeça foi cortada exatamente no dia 6 de outubro de 1897, logo após o fim da guerra. Conselheiro havia morrido em 22 de setembro daquele mesmo ano e permaneceu enterrado até que seu corpo fosse encontrado, exumado e decapitado”, conta Robério Santos, pesquisador e escritor especializado em cangaço e em Canudos.
Lembre-se que era um tempo sem internet. E, apesar de muita gente duvidar, a cabeça tornou-se uma celebridade nacional (e mórbida) até parar nas prateleiras de Nina Rodrigues, que na época fazia alguns estudos hoje considerados racismo científico. Partindo de escolas européias, Nina Rodrigues queria provar sua tese de que degeneração racial e comportamentos criminosos poderiam ser identificados no corpo humano em medições antropométricas e, sobretudo, craniométricas. No bom português, ele acreditava que medir, analisar crânios e identificar suas anomalias poderiam prever a predisposição criminosa ou psicológica do indivíduo. Por isso tantos crânios ali – e o de Conselheiro também estava presente. Ora, seria o clímax de sua pesquisa conseguir provar sua teoria logo numa cabeça tão temida e contraventora para o período. Será que deu certo?
Antes de responder esta pergunta, é preciso voltar no tempo e entender os meios até justificar o fim. Há 130 anos, um dos conflitos mais sangrentos no Brasil se iniciava, entre um país recém-republicano e Canudos, aqui na Bahia, uma espécie de sociedade alternativa que decidiu quebrar qualquer vínculo com o Estado. No centro disso tudo estava Antônio Conselheiro, o idealizador, o Raul Seixas messiânico. O resultado dessa guerra está nos livros: um massacre com mais de 25 mil mortos, uma carnificina tanto para a população quanto para o poderio militar, que levou diversos sarrafos dos jagunços de Conselheiro.
Se você faltou nessa aula de história, vamos aprofundar um pouquinho mais até retornar à cabeça cortada.
O Brasil vivia a mudança da monarquia para a república. No Nordeste, principalmente com a seca, surgiram alguns messiânicos e pregadores que se espalharam pela região, conquistando seguidores por meio de sermões cristãos e proféticos. Mas nenhum outro foi como Antônio Conselheiro.
Jornal da época, falando da exumação de Conselheiro por Divulgação
Antônio Vicente Mendes Maciel reuniu milhares de seguidores no sertão da Bahia. Pregando valores cristãos, crítica à desigualdade social e avesso à república, ele chegou a quebrar uma tabela republicana de impostos, o que causou uma repercussão nacional. Foi quebrada na cidade de Bom Conselho, hoje Cícero Dantas. Curiosamente, no mesmo local que foi quebrada a tabela de impostos, tem uma praça com o nome de Conselheiro. Mas ele ganhou a atenção do país ao fundar uma comunidade em Canudos, com mais de 25 mil habitantes, entre sertanejos miseráveis, ex-escravizados, retirantes e fugitivos da justiça. Um verdadeiro campo científico para Nina Rodrigues. Inclusive, historiadores apontam que Euclides da Cunha teve forte influência do médico em sua viagem até Canudos.
Lá, no povoado de Conselheiro, a lógica era a desobediência ao sistema novo. E a pressão, principalmente da mídia baiana e nacional, era grande para dar cabo do “falso profeta”. A imprensa tratou de adjetivar com os piores nomes possíveis o líder, criando um monstro anti-progresso da República, o que levou a culminar na guerra de Canudos em 1896, após muita pressão popular. O conflito terminou no ano seguinte.
Nesse período, Conselheiro já era uma celebridade nacional e o inimigo número 1 do país. Por três vezes as autoridades tentaram acabar com Canudos, mas levavam sempre um sacode. Na terceira, inclusive, um dos coronéis mais cruéis do Brasil, Antônio Moreira César, mais conhecido como “Corta-Cabeças”, foi pessoalmente ao combate e não saiu vivo para contar a história. Obviamente não foi ele quem cortou a cabeça de Antônio. Aliás, não foi o exército que deu fim ao Conselheiro, mas uma forte caganeira.
Dias antes do desfecho da guerra, o líder morreu devido a uma forte disenteria. Seus seguidores, mesmo sob ataque, tentaram manter o corpo guardado, na esperança dele ressuscitar, mas o cheiro já incomodava e decidiram enterrá-lo. Quando o exército finalmente venceu a guerra, cadê Conselheiro?
“Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve camada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam desparzido algumas flores murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do “famigerado e bárbaro agitador”, escreveu Euclides da Cunha, no livro Os Sertões.
As últimas palavras do famoso livro são justamente falando sobre a exumação e a cabeça cortada de Conselheiro. Segundo seu relato no livro, Conselheiro foi exumado e o fotógrafo Flávio de Barros fez o registro de um corpo surpreendentemente conservado para o número de dias sem vida. Já estavam se preparando para enterrá-lo novamente com tudo no lugar, mas…
“Restituíram-no à cova. Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita e, como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores”, descreveu Euclides. A partir daí, a cabeça de Conselheiro virou a celebridade mórbida do Brasil republicano, que se considerava vitorioso com o fim de Conselheiro. A cabeça da besta, do transgressor, estava fora do seu corpo e todo mundo queria ver de perto. E Euclides contribuiu bastante para este espetáculo, pois ele representava a imprensa in loco. E todos reproduziram suas concepções sobre a importância daquela cabeça, mesmo sem vê-la.
“Preservada como fosse, o fato é que a cabeça de Antônio Maciel passaria das sombras do atavismo, o sertão, segundo Cunha, para a luz da ciência moderna, o litoral. Nesse movimento da escuridão à luz, o crânio se tornaria célebre. O periódico República do Rio Grande do Norte, por exemplo, corroborava o pedido de ‘alguns amigos’ para que o crânio de Conselheiro fosse transportado ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, pois ‘o estudo do craneo de Antônio Maciel offerece particularidades dignas de serem assignaladas scientificamente (grafia da época)’”, disse a doutora em Estudos Hispânicos e Luso-Brasileiros, Isabela Fraga, no seu ensaio “O crânio-celebridade: Antônio Conselheiro e o fracasso da degeneração racial”.
Era tanta sandice em torno da cabeça de Conselheiro, que até o jornal carioca Gazeta de Notícias sugeriu que um espírita, religião já consolidada, invocasse um médico legista francês para que analisasse o crânio do líder de Canudos, para saber quem era o homem atrás do mito. No final das contas, ele acabou indo para a capital baiana, Salvador, onde o criador da Escola de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Bahia, Nina Rodrigues, aguardava ansiosamente.
O próprio Euclides da Cunha, em Os Sertões, ‘adivinhou’ o destino do que sobrou de Conselheiro: “Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura…”, escreveu, mostrando que o próprio escritor conhecia sobre os estudos de Nina.
Nina já tinha estudado Conselheiro, mas à distância. Meses antes da morte do líder de Canudos, o médico publicou o artigo “A loucura epidêmica de Canudos: Antônio Conselheiro e os jagunços”. Ele finaliza dizendo que o fundador de Canudos era um “delirante crônico na fase megalomaníaca da psicose”, sem sequer conhecê-lo pessoalmente.
Pior. Nina alegou, mesmo analisando apenas as informações que tinha conhecimento sobre Canudos, que os seguidores de Conselheiro eram raças inferiores e que a comunidade não passava de uma histeria coletiva que seguia um simples louco. “A população sertaneja é e será monarquista por muito tempo, porque no estágio inferior da evolução social em que se acha, falece-lhe a precisa capacidade mental para compreender e aceitar a substituição do representante concreto do poder pela abstração que ele encarna, pela lei”, escreveu Nina.
Rodrigues queria mais: a cabeça de Conselheiro. Era o clímax de sua pesquisa baseada na craniometria, em que era possível provar, por meio de deformidades e medições cranianas, predisposição para a degeneração e atitudes criminosas. Mais tarde esta teoria ficou conhecida como racismo científico, como já dissemos, pois a direção dos estudos eram voltados apenas para provar que os brancos eram superiores aos mestiços, indígenas e negros.
“Este estudo era da escola italiana (Escola Positiva) de Cesare Lombroso e consistia em uma pseudociência que determinava que os indivíduos já nasciam predispostos ao crime, sendo as marcas cranianas um suposto indicativo dessa tendência. Vários personagens históricos, muitas vezes considerados violentos, foram analisados, e chegou-se à conclusão de que não apresentavam deformidade alguma”, conta Robério, que está escrevendo o livro sobre o tema, ainda sem data de lançamento. Foi justamente pesquisando para o livro que ele encontrou a foto. Mas, no final das contas, Nina conseguiu provar alguma coisa com a cabeça do líder de Canudos?
Na conclusão de sua pesquisa, uma simples frase: “É pois um crânio normal”, disse Nina, possivelmente frustrado. Talvez por isso a cabeça de Conselheiro perdeu o interesse tornando-se sinônimo de fracasso, se perdendo no meio de outros crânios estudados por Rodrigues, como um brinquedo que perdeu a graça e virou um enfeite na prateleira.
“O crânio de Conselheiro não continha qualquer anomalia que sinalizasse a degeneração causadora da loucura que a tantos seduziu”, conclui Isabela Fraga. O resultado da análise craniana de Nina chegou a ser publicado no periódico francês Annales medico-psychiatriques, em 1898. “Quase podemos escutar o tom de decepção na voz de Nina Rodrigues ao afirmar que o ‘crânio de Antônio Conselheiro não apresentava nenhuma anomalia que denunciasse traços de degenerescência’”, completa Fraga.
Mas se você achou um absurdo a pesquisa de Nina, não se assuste muito, pois ela ainda pode ser observada na sociedade contemporânea. Uma juíza em Campinas (SP), em 2019, afirmou que um réu era “branco demais” para ter cometido tantos crimes. Na sentença, ela disse que “Vale anotar que o réu não possui o estereótipo padrão de bandido; possui pele, olhos e cabelos claros, não estando sujeito a ser facilmente confundido”.
“Esse estudo de Nina não era típico apenas do Brasil. Acredito que o mundo inteiro tenha abraçado essa ideia e, com o tempo, a teoria foi caindo em desuso. Se isso ajudou a ampliar a xenofobia e o racismo, creio que sim, ao menos em parte, pois ainda hoje é possível notar que muitos associam a cor da pele ou o formato do rosto a atitudes nefastas”, complementa Robério.
A cabeça de Conselheiro, antes objeto de troféu da Nova República, se perdeu na prateleira frustrada de um médico cientista. Seu resto mortal ficou esquecido na Faculdade de Medicina da Bahia até que, no carnaval do dia 2 de março de 1905, um incêndio no local transformou todos os crânios da foto em cinzas, incluindo o de Conselheiro. Todo gabinete de estudos de Nina foi destruído. No ano seguinte, no dia 17 de julho de 1906, Rodrigues morreu em Paris. Curiosamente, anos depois, mais precisamente em 1938, outras duas cabeças famosas também aportaram em Salvador: as de Maria Bonita e Lampião. Ironicamente, eles ficaram durante anos exibidos no museu chamado Nina Rodrigues.
Fonte: www.correio24horas.com.br
Publicado em: 2023-04-11 15:09:00 | Autor: Moyses Suzart |
