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Politica

Terror, feminismo e identidade marcam ‘A Noiva!’, nova versão de Frankenstein

Terror, feminismo e identidade marcam ‘A Noiva!’, nova versão de Frankenstein

Por Hyader Epaminondas

“A Noiva!” é um filme que evoca o espírito de Bonnie e Clyde ao mesmo tempo em que distorce o romantismo trágico de Romeu e Julieta em uma fábula macabra para ressignificar os monstros clássicos. Sem receio de comparação, a narrativa transforma a fuga apaixonada em um gesto de rebelião contra o próprio destino, revelando uma nova face para os monstros clássicos do cinema: menos criaturas do horror e mais corpos que recusam o papel que lhes foi imposto.

Entre o prestígio da temporada de prêmios e uma estética assumidamente surrealista, “A Noiva!” marca o retorno de Maggie Gyllenhaal à direção após o elogiado “A Filha Perdida”. Gyllenhaal conduz essa visão sem qualquer discrição, mergulhando em um cinema assumidamente experimental. Há quase um espelhamento entre a diretora e a própria Dra. Euphronius: ambas operam como criadoras em laboratório, costurando fragmentos de mito, desejo e violência para dar vida a algo novo. O filme parece perguntar se a monstruosidade nasce do corpo que é criado ou do mundo que insiste em aprisioná-lo a esse rótulo.

Aqui, a cineasta abandona qualquer reverência ao material original e aposta em uma releitura punk rock da clássica noiva do monstro de Frankenstein, posicionando Jessie Buckley, apontada como uma das favoritas ao Oscar de Melhor Atriz, no centro de uma narrativa que mistura horror gótico, rebeldia estética e uma abordagem contemporânea sobre identidade, criação e pertencimento.

Ambientado nos anos 1930, em um entra e sai de cinemas locais, o filme dialoga com um período de intensas transformações sociais, marcado pela Grande Depressão, pelo avanço das lutas operárias e pela crescente presença de mulheres nos movimentos sindicais e nas mobilizações políticas. Nesse cenário de instabilidade e reinvenção coletiva, a própria figura da Noiva ganha novos significantes: não mais apenas criatura ou metáfora romântica, mas um corpo político em formação, herdeiro tardio das primeiras ondas do movimento sufragista e das disputas por autonomia e voz.

A direção de Gyllenhaal se move em um registro quase onírico, ela subtrai o realismo para absorver o surrealismo do universo dos monstros e o traduz em uma narrativa de atmosfera noir que rejeita a austeridade cromática tradicional do gênero. No lugar das sombras desbotadas e da ausência de cor, a diretora aposta em uma explosão de saturação. As cores parecem pulsar junto aos sentimentos reprimidos de seus personagens, como se cada quadro fosse atravessado por emoções prestes a transbordar.

Os enquadramentos permanecem inteiramente ancorados na perspectiva dos personagens. A câmera observa o mundo através deles, contaminada por seus desejos, medos e descobertas. Ao incorporar a própria anarquia do horror clássico à sua linguagem visual, Gyllenhaal cria algo tão estranho e bizarramente divertido quanto as criaturas que habitam o filme. Aqui, os monstros também têm sua constituição simbólica narrativa alterada.

Essa transformação permite que a diretora recupere, ainda que simbolicamente, a voz silenciada de Mary Shelley. Em vez de monstros como ameaças, o filme revela monstros muito mais humanos e sociais. São estruturas de controle, encarceramento e opressão que tentam determinar quem pode existir e sob quais condições.

Uma estética de sonho e caos: Jessie Buckley no centro da criação

Se Buckley já vinha de um ano extraordinário com “Hamnet” e “Como Fotografar um Fantasma”, aqui ela ultrapassa qualquer expectativa ao unir o que tinha de melhor nesses dois filmes em algo único, com uma interpretação de tirar o fôlego. Sua atuação é elétrica e magnética, como se cada gesto carregasse uma centelha recém-arrancada de um laboratório em funcionamento, transitando entre a fragilidade, a inocência e a fúria feminina com uma fluidez quase alquímica, transformando a personagem diante dos nossos olhos.

Há algo de profundamente orgânico na forma como ela constrói essa criatura, não se trata apenas de interpretar uma mulher reanimada, mas de encenar o próprio processo de ganhar vida em uma atmosfera completamente opressora. Cada olhar, respiração, ruptura de voz parece acrescentar uma nova camada de carne, memória e desejo a esse corpo que insiste em existir, apesar das forças que tentam contê-lo.

Ao mesmo tempo, opera em duas frequências narrativas: ela é a Noiva e também o espírito de Mary Shelley. As duas presenças não se alternam de forma rígida, elas se infiltram uma na outra, como se a criatura e sua criadora compartilhassem o mesmo pulso vital de forma líquida. Em certos momentos, parece que Shelley escreve a Noiva, em outros, que a Noiva rasga as páginas e passa a escrever a si mesma. O resultado é uma performance que carrega a narrativa em um comentário subversivo sobre misoginia, identidade e autodeterminação.

Ao seu lado, Christian Bale interpreta uma versão mais amadurecida e desencantada de Frankenstein. Reanimado mais uma vez, como se o mundo insistisse em devolver fôlego a um corpo que já conheceu demais a morte, ele caminha agora movido por um novo impulso vital: a busca por uma companheira.

Nesse segundo sopro de existência, não é apenas o corpo que retorna à vida, mas também o desejo de partilhar a própria condição de criatura. Extraído de um ponto posterior ao final do conto original, seu monstro carrega as marcas do tempo e as desilusões que a vida carrega. Existe nele uma amargura, mas também um desejo irreprimível de continuar existindo, onde sempre encontra conforto nas histórias dentro do cinema.

Um filme sobre existir

“A Noiva!” é menos um filme sobre monstros e mais um filme sobre o impulso indomável de permanecer vivo, independente de quem queira te silenciar. Sobre a urgência de reivindicar uma identidade que nem sempre coincide com aquela que nos foi dada, mas com aquela que somos obrigados a inventar para sobreviver.

Ao ecoar a voz historicamente apagada de Mary Shelley, o filme transforma a própria origem de Frankenstein em matéria de insurgência. O que emerge daí não é apenas uma narrativa de criação, mas um gesto de retomada: uma história de empoderamento feminino contada através da memória silenciada de sua própria criadora.

Nesse processo, os monstros deixam de ser as criaturas costuradas em laboratório. Os verdadeiros horrores se revelam nas estruturas que aprisionam, controlam e tentam domesticar corpos e vozes. Diante de um sistema que insiste em conter e definir, “A Noiva!” responde com um grito de existência: o de uma criatura que, ao finalmente falar por si, transforma sua própria vida em ato de rebelião.

Em um mundo que insiste em aprisionar, rotular e controlar, Gyllenhaal transforma o conto de Frankenstein em algo surpreendentemente íntimo e ironicamente atual. Uma história sobre invenção de si mesmo em meio a uma sociedade que, muitas vezes, revela monstros muito mais assustadores do que qualquer criatura da ficção.

Fonte: midianinja.org

Publicado em: 2026-03-18 20:00:00 | Autor: <span>Cine NINJA</span> |

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